Sábado, 11 de Fevereiro de 2012
Ano 15 - n° 5516
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Artigos

11/02/2012 | 00:00
DO FUNDO DA MEMÓRIA (final)
Autoria: Carlos Chagas

10/02/2012 | 00:00
DO FUNDO DA MEMÓRIA (7)
Autoria: Carlos Chagas

09/02/2012 | 00:00
DO FUNDO DA MEMÓRIA: Usurpadores em profusão
Autoria: Carlos Chagas

08/02/2012 | 00:00
DO FUNDO DA MEMÓRIA (5)
Autoria: Carlos Chagas

07/02/2012 | 00:00
Do Fundo da Memória (4)
Autoria: Carlos Chagas

06/02/2012 | 00:00
Do Fundo da Memória (3)
Autoria: Carlos Chagas

05/02/2012 | 00:00
Do Fundo da Memória (2)
Autoria: Carlos Chagas

04/02/2012 | 00:00
Do Fundo da Memória (1)
Autoria: Carlos Chagas

DO FUNDO DA MEMÓRIA (final)

Por Carlos Chagas

Quem realmente mandava

 

                                               Quase 50  anos nos separam de 1964, não propriamente o ano em que o Brasil se dividiu, porque dividido já estava, mas o ano da ruptura explícita do país  em duas metades.  O diabo é que duas metades artificiais,  falsas,  levadas ao confronto desnecessário por força das circunstâncias e, mais do que delas, por maliciosa manobra das elites econômico-financeiras  nacionais e internacionais.

                                               Porque até hoje vende-se a impressão de que  a partir de 1964 o Brasil  rachou  entre civis e militares, estes usurpando o poder e impondo a ditadura, aqueles vilipendiados,  afastados de cena e condenados, primeiro, ao marasmo, depois   à discordância,  e, desta  à resistência e à vitória,  21 anos depois, com o afastamento das Forças Armadas da cena política.

                                               Na verdade,  não foi nada disso, ou isso expressou apenas a casca enganadora de um conteúdo muito diferente.

                                               Porque tanto a sociedade civil quanto a militar tinham e tem a mesma origem e o mesmo destino. Formam uma só unidade.    Pensam igual e possuem objetivos idênticos.   No caso, a preservação da nação,  de nossa  soberania e de nosso   território.   A presença do Estado como agente regulador das relações econômicas e sociais, fator  maior da distribuição da igualdade entre a população. Mais ainda, a  construção de uma realidade mais equânime e projetada para o futuro. A distribuição da riqueza nacional em termos solidários.

                                               Era  isso o que pretendiam  os civis  depostos pelos  militares, como foi isso o que perseguiram  os militares que depuseram os civis.

                                                   Fala-se do povo. Porque foram as  elites as responsáveis pela ilusória e trágica  divisão cultivada até hoje, inflada  pela truculência com que os militares se comportaram, tanto quanto  pela irresponsabilidade anterior ou a reação posterior,  muitas vezes desmedida,  com que certas parcelas do poder civil reagiram.  O que  menos importa, hoje, é saber quem nasceu  primeiro,  se o ovo ou a galinha.

                                               Na verdade, era e é outra,  a verdadeira  divisão que as referidas elites buscaram e buscam ocultar.   Utilizaram  os militares, quarenta anos atrás,  como as mãos do gato,  para tirar as castanhas do fogo.  Hoje,  utilizam a  sociedade civil, que rotulam de  libertária,  para obter os mesmos fins. Quais? A satisfação de seus interesses, a preservação de seus privilégios  e a concentração de  renda cada vez maior,  em suas mãos. A prevalência de uma casta de ricos cada vez mais  ricos e de uma massa sempre maior de descartáveis premidos pela indigência, o desemprego, a fome e  a miséria.  Civis e militares.    

                                                   Por ironia, foram os militares que, no poder,  ainda conseguiram preservar as linhas mestras de nossa existência   como nação. Como  foram os civis que, ultrapassando  a ditadura, viram-se  enganados e ludibriados, obrigados a aceitar   o  modelo cruel que nos assola cada vez mais, neoliberal, globalizante ou o que seja, responsável pela nossa débacle como   sociedade independente e    organizada.

                                               Tremerão as elites no  dia em que o Brasil  conseguir quebrar a casca desse confronto anterior,  real e justificável pela  argumentação dos dois lados.   Estará desfeito o muro que nos separa, artificialmente mantido como forma de alimentar a ambição e os privilégios das minorias responsáveis pelo aumento da indigência, do desemprego, da fome e da miséria.

                                               Eleito pela indignação diante de tamanha  farsa, o governo Lula encontra-se iludido por essas  mesmas elites,   responsáveis pela preservação do modelo que há anos nos assola, feito de falsas verdades absolutas como a de que não  poderia ser diferente,  já que a inflação alcançaria patamares insustentáveis, o dólar chegaria à estratosfera, o risco-Brasil nos sufocaria e os investimentos externos desapareceriam – levando-nos à desagregação.  É mentira. A desagregação está aí  mesmo, expressa  no objetivo oculto que nos vem sendo imposto.     A quebra da soberania,   a alienação do  patrimônio público, a transformação do trabalhador em apêndice desimportante do processo econômico, a perda sistemática do poder aquisitivo dos salários, a supressão dos direitos sociais, a prevalência do setor  especulativo sobre o setor produtivo, a avidez do capital-motel que chega de tarde, passa a noite a vai embora de manhã,  depois de haver estuprado um pouco  mais nossa economia, a transformação do Brasil em mero exportador de riqueza,  mais do que  necessária ao nosso desenvolvimento, a submissão aos ucasses internacionais – tudo isso e muito mais continuam  alimentados pelos esqueletos do passado.  

                                                        Mudará tudo no  dia em que civis e militares se conscientizarem de estar sendo enganados e vilipendiados pela quadrilha neoliberal e dita globalizante, mesmo ao  preço da cicatrização de feridas anteriores.

                                                        Haverá que encerrar estas desimportantes considerações como preliminar para  os quase cinqüenta  anos da eclosão do movimento militar, em 2014.   Provavelmente  surgirão condenações dos dois lados. Dos militares, julgando-se ofendidos pelo reconhecimento dos excessos que seus antecessores  praticaram. Dos civis,  que sofreram e sentem-se no direito de cobrar reparações até o fim dos tempos.   Paciência, o passado  não se deu ao trabalho de passar para ser esquecido. Não  nos dirá o que  fazer,  mas precisamente o contrário.  Sempre  mostra, o  passado, aquilo  que devemos evitar.   Coisa  que até agora não conseguimos, por força de quantos pretendem impedir o futuro. (final)

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